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| Marlene: quase 15 anos de trabalho e nenhuma vontade de voltar no tempo. Ela gosta do que faz |
Texto
Luiz André Argemi
Estudante de Jornalismo
Fotografia
Monique Elis Hummes
Estudante de Jornalismo
A sociedade contemporânea, é sabido, vive seus percalços. Cabe e urge ao tempo presente tornar-se um lugar de debates e circulação de idéias que proporcionem a superação de obstáculos e o consequente avanço em tudo o que tange as relações entre seus indivíduos. Não são somente as mudanças climáticas ou os novos movimentos no tabuleiro da geopolítica aqueles que merecem atenção do conjunto da sociedade. Ou, ainda, a economia e seus hormônios ansiosos em espraiar-se por via da tão falada e pouco entendida globalização.
Há questões menos distantes do cidadão comum, como nós e você. Próximas na razão do cotidiano, das ruas da nossa aldeia, que insiste em globalizar-se numa via de mão única, aonde todos vêm de encontro àquilo que representamos, e não ao que somos. Isto não requereria especializações, títulos ou referenciais teóricos, não fosse a resistência da humanidade que, em sua determinante minoria, se foca nas diferenças, em detrimento daquilo que torna todos os seres humanos iguais.
Em 1994, o estudante do curso de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Braga da Costa, recebeu uma tarefa em sala de aula. Assim como todos os seus colegas da disciplina Psicologia Social II, ele teria que participar de alguma atividade proletária exercida por pessoas de classes pobres. “Eu escolhi trabalhar como gari, pois é a profissão mais rejeitada pelas pessoas em geral”, lembra em entrevista que deu ao site Responsabilidade Social, em 2003. “Fulano serve nem para ser lixeiro”; “se tivesse que trabalhar de gari, preferia ser assaltante, bandido”. Frases que, segundo Fernando, são muito repetidas por aí. Passaram-se oito anos desde a primeira incursão do jovem pesquisador no universo dos garis da USP. Neste período, ele se viu transitando em um mundo à parte, onde a relação entre os extremos da estrutura social levou o futuro psicólogo a cunhar o conceito de Invisibilidade Social.
A partir das constatações e leituras que fizemos daquilo que Costa vivenciou em sua jornada como gari na universidade em que estudava, nós, um grupo de alunos de Jornalismo, fomos à campo, escolhendo a cidade de São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre. A intenção era saber se havia um cenário semelhante nesta cidade com mais de 200 mil habitantes onde funciona o campus da universidade em que estudamos, a Unisinos. Optamos por ouvir alguém que pudesse representar a parte inferior da estrutura social. A exemplo de Fernando escolhemos um gari.
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| Sábado foi o dia de cobrir o turno de um colega na Praça dos Brinquedos, no centro da cidade |
Varredora há quase 15 anos, Marlene vem do interior do estado. Logo que começou na profissão, ela conta, tinha vergonha do que fazia. Houve vezes em que se encontrou com pessoas que conhecia, seus vizinhos no bairro em que morava. Vassoura na mão, carrinho e o inconfundível uniforme cor laranja. Sua reação foi esconder o rosto sob o boné. Sua recusa em reconhecer-se como gari contrasta com o sentimento de liberdade que hoje se tornou atributo daquilo que faz pelas ruas da cidade. Ela faz questão, repete por várias vezes durante a conversa que trabalha “ao ar livre”. Palavras suavemente pronunciadas em respostas e comentários elaborados por alguém que parece ter a mente invadida por lembranças, Marlene agora se vê e não se esconde mais. Ela que já foi inclusive o tema de um trabalho que sua filha adolescente apresentou na escola.
O cotidiano de quem varre para recolher toda a sorte de objetos que outros utilizaram calçadas, ruas e praças para despejar é rico. Sua vida misturou-se a daqueles que cruzam o seu caminho e os espaços que ela limpa, zelosamente, pudemos notar. Há muitos personagens, ora humanidade, ora a mais pura indiferença. Idades e classes sociais variadas, há os que negam um copo d água em uma tórrida jornada sob o sol do verão leopoldense. Mas há também a jarra com água gelada, todos os dias, no mesmo lugar. Portas se fecham negando qualquer aproximação, quando há quem prefira elogiar a varredora e suas colegas de labuta, cujos nomes são sempre lembrados.
Marlene não se identificou com as agruras dos anos em que Fernando Costa varreu a USP, embora lá no fundo a gente perceba nela alguém que sempre vai lembrar-se do tempo em que preferia ficar em pé no ônibus a ver que poucos eram os que aceitariam dividir um banco com ela e o seu uniforme cor laranja.


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